Uma descrição será feita amanhã.

They are just like me.

Há uns dias uma mãe decidiu fazer um relato sobre a possível homossexualidade do seu filho, uma criança de 6 anos. Muito bacana.

*

“Mommy, they are just like me.”

Meu filho mais velho tem seis anos e está apaixonado pela primeira vez. Está apaixonado pelo Blaine do Glee. Pros que não sabem, Blaine é um garoto… um garoto gay, o namorado de um dos personagens principais, Kurt.

Esse não é um amor do tipo “ele acha o Blaine muito legal”. É do tipo de amor em que ele olha em devaneio para uma foto do Blaine por meia hora e segue com um desejoso “Ele é tão lindo”

Ele ama o episódio em que os dois garotos se beijam. Meu filho chama as pessoas em outros comodos da casa pra ter certeza de que elas não perderão a sua “parte favorita”. Ele rebobina e assiste de novo… e também obriga os outros a rever se achar que as pessoas não estavam prestando atenção suficiente.

Essa paixão excessiva não preocupa a mim ou ao pai dele. Vivemos numa vizinhança bem liberal, muitos de nossos amigos são gays e a ideia de ter um filho gay não é algo que incomode a nenhum de nós. Nosso filho será o que ele for, e é nosso dever ama-lo. Fim da história.

E também, ele tem seis anos. Pessoas de seis anos ficam obcecadas com todo tipo de coisa. Isso pode não significar absolutamente nada. Nós sempre brincamos que ou ele é gay ou nós temos o melhor material de chantagem da história humana quando ele for um garoto hetero de 16 anos. (Leve aquelas fotos da hora do banho!)

Então, no outro dia nós estávamos viajando pelo estado ouvindo o cd do Warblers (claro),  e no meio de Candles meu filho começou a falar do banco de trás:

“Mamãe, Kurt e Blaine são namorados,”

“Sim, eles são.”

“Eles não gostam de beijar garotas. Eles só beijam meninos.”

“É verdade.”

“Mamãe, eles são iguais a mim.”

“Isso é ótimo, querido. Você sabe que eu te amo de qualquer jeito?”

“Eu sei…” eu poderia ouvi-lo rolando os olhos pra mim. [uma tradução melhor, alguém?]

Quanto chegamos em casa eu recapitulei a conversa pro pai dele e nós simplesmente olhamos um nos olhos do outro por um momento.

Então ele sorriu.

“Então, se aos 16 ele quiser fazer um grande anúncio à mesa do jantar, nós podemos dizer ‘vc nos disse quando tinha 6. Passe as cenouras’ e ele ficará desapontado por termos roubado seu grande momento dramático”, meu marido disse com uma gargalhada e me abraçou.

Só o tempo vai dizer se meu filho é gay, mas se ele for, estou feliz que ele seja meu. Estou feliz que ele tenha nascido na nossa família. Uma família cheia de pessoas que vão ama-lo e aceita-lo. Pessoas que nunca irão querer que ele mude. Com pais que irão esperar pra dançar no casamento dele.

E eu tenho que admitir, Blaine seria um genro realmente fofo.

(Post original aqui: http://getstooobsessed.tumblr.com/post/9004061623/mommy-they-are-just-like-me-my-oldest-son-is)

**

Bonito, né? Outro dia eu pensava em como as histórias de saída do armário são sempre um assunto comum entre os gays e como dificilmente são memórias positivas. Garoto de sorte esse ae.

Um videozinho de humor sobre a cena preferida do garoto:

E os Warblers:

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Marley e eu perde.

Acabei de ver o “Não gosto dos meninos“, curta brasileiro inspirado no projeto It Gets Better. Até os dez primeiros minutos eu já tinha chorado por Junho inteiro.

Impossível não se identificar em várias histórias. Impossível não lembrar de como os monstros eram gigantescos e como toda possibilidade de Vida era encoberta por eles. Impossível não lembrar do medo, da vergonha, do nó na garganta e das noites desejando que as coisas fossem diferentes, normais, fáceis.

E impossível não lembrar dos gestos de carinho e compreensão e como eles ajudaram – e ajudam – a firmar-se melhor, a desenvolver autoestima, respeito, autonomia.

Minha única crítica é que o filme poderia ter trazido algumas histórias mais dolorosas ou apresentar mais enfaticamente algumas dessas passagens.  Acho que nenhum dos entrevistados aponta um conflito de grandes proporções com a família ou mesmo um caso de violência grande e para quem vive esse tipo de experiências, a identificação seguida pela mensagem de que as coisas vão melhorar e se tornar menos complicadas é muito mais valiosa.

Do projeto original:

“O fundo do poço é igual à boca do poço, só que é diferente. No fundo do poço tudo parece continuar na mesma. Os dias se sucedem, os problemas e os livros na mesinha de cabeceira se acumulam, as contas chegam, o elevador para para manutenção, chove e faz sol como a meteorologia é servida. A aparência de normalidade é tão angustiante que dá vontade de gritar. Para quem está no fundo do poço, “normalidade” é um estado que não existe. Problemas e contratempos que, na superfície, têm enorme significado, passam a acontecer num universo paralelo, sem substância. No fundo do poço nada tem importância além do que realmente importa: a pedra no peito, o medo de pensar, o pavor do silêncio, a ausência de sinais de vida verdadeira.

O ar é pesado no fundo do poço, mais ou menos como a água que, em mergulhos profundos, é tão pesada que achata as bolhas de ar. Quem já esteve no mar sabe como é. É por isso que, no fundo do poço, às vezes até respirar dói.

O mundo e as pessoas são diferentes vistos do fundo do poço; os gestos – ou a ausência deles – ganham dimensões às vezes amplificadas, às vezes distorcidas, como imagens vistas à distância num deserto escaldante. Por outro lado, se há uma vantagem no fundo do poço, é a nitidez com que se percebem os sentimentos, nossos e dos outros. Amigos próximos que não dão sinal de vida talvez não sejam tão amigos ou tão próximos; conhecidos distantes, às vezes até geograficamente, revelam-se surpreendentemente próximos. No fundo do poço, qualquer carinho reverbera nas paredes e, como um eco, é por elas amplificado; um abraço mais apertado, um olhar que diz “Estou aqui”, um email. O silêncio, inversamente, escorre poço abaixo, como uma gosma gelada, criando dúvidas e distâncias onde, em circunstâncias normais, nada existiria. Mas, eu não sei se já disse, no fundo do poço não há circunstâncias normais.

A vida não para no fundo do poço, mas se torna bastante difícil. Acordar é uma decisão penosa, e muitas vezes inútil: acorda-se na cama para pouco depois se adormecer no sofá. Nos dias bons dorme-se o tempo todo no fundo do poço, um sono pesado e sem sonhos. Nos dias ruins quase não se dorme, porque basta fechar os olhos para que os sonhos se transformem em pesadelos. Os dias bons, felizmente, são maioria.

No fundo do poço o cérebro é, na melhor das hipóteses, um orgão inútil. Não serve para nada. É incapaz de se lembrar de um nome, de um número ou de tarefas a cumprir. Não consegue se concentrar o suficiente para a leitura de um livro, ou para que um filme faça sentido: no fundo do poço, um filme é apenas uma sucessão de imagens desconexas e desinteressantes, incapazes de segurar o olhar. Reduzido ao seu nível mais primário de funcionamento, o cérebro serve apenas para executar tarefas simples, como jogar Angry Birds ou subir fotos para o Instagram. Mas não me entendam mal: um cérebro imprestável desses é uma benção, porque nos dias em que funciona como deveria, o cérebro é a mais eficiente máquina de lembranças e pensamentos torturantes.

Nada vale a pena no fundo do poço: sair de casa, andar pela cidade, ir ao shopping, criar ikebanas, montar quebra-cabeças. Dizem que exercício ajuda, mas para fazer exercício é preciso chegar à academia, e para chegar à academia é preciso sair de casa – sair de casa sendo, talvez, uma das coisas mais difíceis de se executar no fundo do poço. Até encontrar os amigos é complicado, porque as conversas se tornam tão difíceis de acompanhar quanto a atmosfera feliz que costuma reger tais encontros. Viajar quebra um pouco essa rotina asfixiante, mas na verdade não resolve nada, apenas leva o fundo do poço para outra paisagem.

Os gatos sabem o que é o fundo do poço e evitam perder seu bípede de vista. Fazem turnos de colo e de demonstrações de afeto e, à noite, esquecem suas eventuais divergências para dormir todos juntos na cama, formando uma pequena barreira de bigodes contra os maus espíritos.

O fundo do poço tem poder. Quanto mais tempo se passa no fundo do poço, mais tempo se passa no fundo do poço. Lutar contra o fundo do poço é praticamente impossível. Pode-se fugir dele por pequenos intervalos de tempo, com simulacros mínimos de normalidade: acender bastõezinhos de incenso, fazer as unhas, passar hidratante, cortar o cabelo, usar perfume. Não adianta nada, mas despista.

Só se pode ver o fundo do poço com a ajuda da indústria farmacêutica. A seco, o fundo do poço aperta o coração, corta a respiração e vira um buraco negro de dimensões e conseqüências inimagináveis. Um tarja preta bem receitado permite, porém, que se veja o fundo do poço como ele é – como se nos víssemos a nós mesmos de um outro plano, uma outra dimensão. O fundo do poço não desaparece, mas torna-se compreensível, uma esfinge enfim decifrada.

Não se consegue chorar no fundo do poço.

(O Globo, Segundo Caderno, 31.3.2011)

onde eu assino?

Das barreiras

É difícil deixar alguém entrar quando vc passou tanto tempo expulsando quem tentasse. Difícil recolher as armas, abaixar os portões, acalmar tudo que em você grita “Perigo!”.

Leva um tempo para confiar e seguir junto depois de ter viciado a sua mente em um modus operandi que é o oposto disso. Tropeços, falhas, boicotes, medo: tá tudo ali.

Mas ali vc também pode encontrar uma mão estendida e a oferta pra um passeio acompanhado.

É preciso coragem pra aceitar essa mão. É preciso coragem pra sair do quartinho e se conectar com o que a vida tem de mais básico: imprevisibilidade.

Você tem?

I try to live alone
But lonely is so lonely alone
So human as I am
I had to give up my defences

So I smile and try to mean it
To make myself let go

Coincidência engraçada: tive uma entusiasmante conversa sobre o filme Closer com um amigo pelo msn. Ele fez vários comentários e, tendo discordado de alguns, fiquei com vontade de rever o filme. Pouco dps, ao desligar o computador e ir pra sala, encontro meu irmão e a namorada começando a assistir ao dvd do filme.

O post abaixo é um diálogo com esse http://umcorte.blogspot.com/2008/07/closer-perto-demais.html

*

Rever esse filme me fez ter certeza que minha paixão por certos atores pode embaçar minha capacidade de analisar as tramas e olhar para outras personagens. Closer traz o mesmo Jude Law que já vi em vários outros papéis. Lindo, carismático, com um sotaque charmoso… basicamente o mesmo. Poderia ser o Gigolô Joel de A.I., o assassino frio de Estrada para a perdição ou o conquistador Alfie, mas, convenhamos, eu n enjoaria dele nem que ele se repetisse em mais 30 papéis.

Contracenando diretamente com ele está uma Natalie Portman pra lá de gostosa, com um rostinho de dar água na boca e, claro, um diretor que soube explorar essa beleza. Se isso fosse uma coluna gay, acho que escreveria o adjetivo “deslumbrante” para definir algumas cenas da sua personagem. É com o seu caminhar deslumbrante que a trama se inicia e é encerrada. Mesmo caminhar, mesma música (um parenteses para agradecer ao bom tempo em que não escuto a odiosa versão que o Seu Jorge/Ana Carolina fizeram de The blowers daughter, a música em questão) e uma metáfora para ciclos, retornos e repetições, que só poderia estar mais clara se colocassem uma legenda do tipo “assim como era no princípio, agora e sempre, Amém.”

Esses dois atores me cativam e os papéis que interpretam são diretamente afetados por isso. Por outro lado, demorei a dar atenção ao personagem interpretado por Clive Owen – o Dr. Larry –, por nunca ter gostado muito do ator. Há tempos coloquei no orkut uma das cenas protagonizadas por ele e que era minha cena favorita antes mesmo que eu a protagonizasse na vida real. Ainda assim, apenas hoje eu notei o quanto a sua personagem me cativa.

A trama de Closer se constrói explorando os medos e covardias, inseguranças e mentiras de quatro personagens que se cruzam. Meu amigo Apostador acredita que Alice, personagem de Natalie Portman é a única a dizer a verdade nessa trama. Eu, por outro lado, creio que só há uma personagem realmente forte e sincera e é o Dr. Larry. Através dele – constante observador da natureza humana –, tds os outros personagens são desnudados. Ele é o mais maduro, o que melhor administra seu desejo e é o único a ser verdadeiro em todos os momentos do filme.

Uma primeira visão sobre a trama pode dar a impressão de que sua personagem é machista, um tanto inocente, e mesmo cômica (sua primeira cena o é). Um contraponto com a personagem de Natalie Portman, impetuosa, decidida e forte. Mas revendo o filme, n me restam dúvidas de que Larry é a personagem mais equilibrada e forte daquele universo.

Apostador defende que Alice é a mais sincera, mas ela se esconde atrás de uma personagem durante quase toda a trama. Seu verdadeiro nome é Jane, mas é como Alice que ela viverá um relacionamento de quatro anos com Dan (Jude Law). É um ideal de personagem que reflete certa filosofia do “quanto mais ferido, mais paredes eu levanto”, e esse, definitivamente, é um pensamento que me incomoda. Uma exaltação de Alice como uma personagem forte e verdadeira, me soa como uma concordância com esse tipo de medo-cuidado que leva as pessoas a ficarem cada vez mais escondidas em seus castelos ou presas em seus quadrados, para repetir uma metáfora da qual gosto.

O filme não deixa dúvidas quanto ao amor dela pelo personagem do Jude Law: sua entrega é intensa e o amor, verdadeiro. Contudo, não há verdade ou esforço na relação entre os dois. O que ela pensa, pensa sozinha; o que ela sente, é dito em poucos momentos. Ela inicia essa relação com medo, usando uma máscara que permanece até o fim. Ouve seu namorado encantado pela fotógrafa Ana (Júlia Roberts – fraca, pra variar), mostra sua dor para a outra, mas não a expõe para Dan. Em um dos poucos momentos de sinceridade diz que “está esperando por ele (Dan): por ele abandona-la.” Imagina que será abandonada pq sabe do encanto de seu amado por outra mulher, no entanto, não fala a respeito. O que Dan recebe dela é a construção que ela faz do relacionamento, omitindo verdades e apresentando demandas que ele não satisfaz. “Ela não precisa de mim” é a explicação que ele lhe dá qnd ela pergunta o pq de estar sendo trocada.

Dan é um homem fraco, egoísta e vaidoso. Permanece com Alicia por covardia e vaidade, pois é apaixonado por Ana . Não supre as necessidades daquela e nem luta verdadeiramente pela outra: dps que termina com Ana por ter sido traído, se arrepende, busca o rival e acaba por seguir o conselho dele e retomar o amor de Alice. Em tds esses momentos parece uma criança mimada que não sabe ao certo o que fazer.

Quando volta para Alice sabe sobre a transa dela e de Laury, mas não fala sobre isso. Ao invés, finge desconhecer a verdade e a pressiona para que ela conte a verdadeira história. Alguns podem afirmar que era direito dele querer ouvir a verdade, assim como o Dr. Laury quis ouvir as mais íntimas confissões da fotógrafa. Outros podem dizer que Alice não seria perdoada e que por medo, era compreensível que mentisse. Podem dizer ainda, que testa-la daquela forma era pura vaidade nenhum amor. Essas questões, pra mim, são secundárias: o que essa trama revela é um quadro de egoísmo e medo no qual não é possível se travar relação alguma. Cada um pensa e define os porquês do outro sem se conhecerem de fato. Alice, antes de confessar anuncia que falará a verdade e que ele, então, poderá odia-la e deixa-la pra sempre. É desconcertante para ela qnd ele diz que já sabia e que a perdoa. Ela, por sua vez, o abandona em seguida, dizendo que já não o ama.

Se Dan é o egoísta que, como disse Larry, n entende que amor é comprometimento – e isso é o mais importante a se saber –, Alice não fica muito distante. Entrega-se de uma forma infantil, pois ela também é a criança da história, e vaidosa. Terminar com Dan permite que suas verdades sejam reafirmadas e o jogo continue, pois ela não pode correr o risco de ser abandonada. Ela dá as cartas, ela abandona, como disse ao namorado. E o problema será sempre o outro.

Falando brevemente sobre a Júlia Roberts: sua personagem é a mais anêmica e sem graça da trama, casando perfeitamente com sua capacidade artística. Ana é uma mulher deprimida e que, como é comum, cultiva sua infelicidade. Não tem um desejo realmente forte e é facilmente levada pela correnteza. Td bem que era uma correnteza Jude Law e uma correnteza Clive Owen, mas…

Retomando meu ponto: Dr. Larry é o personagem que se destaca dos demais. Ele sabe ler as outras personagens e, por isso, é o que se saí melhor. Reconhece a máscara empunhada por Alice, o medo de ser feliz de Ana, as fraquezas de Dan.

Mas, sobretudo, e o que mais me cativa nessa personagem, ainda q ogrinhos não me encantem, é ter um desejo realmente forte. Obsecado é como ele se define, em determinada cena. Eu o defino como o forte.

Enquanto os outros personagens são lançados uns aos outros, uns contra os outros, ele não se permite ficar à deriva; não constrói mentiras pra si mesmo ou para os outros. Conhecer o que se quer e permitir que seu desejo cresça a ponto de se tornar força motriz de suas ações pode originar uma obsessão, mas pode, também, funcionar como âncora frente à inconstância e medos alheios. Frente a um desejo realmente forte, só outros fortes não se curvam.

No fim da trama, só o Dr. Larry dorme.

uma das minha cenas preferidas.

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